A safra de maçã 2026/27 ainda está começando, mas os próximos dias serão decisivos para os pomares da Serra Catarinense. As principais cultivares produzidas na região, Gala e Fuji, entram agora no período de floração, uma das fases mais importantes do ciclo produtivo. E neste ano, o cenário climático preocupa: o El Niño ainda está em intensificação e a previsão indica uma primavera com chuva e temperaturas acima da média em Santa Catarina. A análise é do pesquisador em Fitotecnia da Epagri em São Joaquim, Matheus Luís Docema.
Para ele, o maior desafio não será apenas o volume de chuva, mas a frequência de dias nublados e úmidos justamente durante a florada. É nesse momento que a macieira depende da polinização cruzada para formar frutos de qualidade, e as abelhas são protagonistas desse processo.
A espécie Apis mellifera realiza o transporte de pólen entre cultivares compatíveis, garantindo fecundação eficiente e boa formação dos frutos. No entanto, seu comportamento é extremamente sensível às condições meteorológicas. Com céu encoberto, temperaturas baixas, vento ou chuva, as abelhas reduzem drasticamente o voo e permanecem mais tempo nas colmeias. Isso significa menos visitas às flores e menor eficiência de polinização, podendo comprometer o pegamento e a uniformidade da produção.
Por isso, a recomendação técnica da pesquisa é que os produtores iniciem a instalação das colmeias antes da abertura completa das flores, distribuindo adequadamente os enxames pelo pomar. Em anos de elevada instabilidade climática, o planejamento da polinização torna-se tão importante quanto o manejo nutricional ou fitossanitário.

Risco de doenças
Além da menor atividade das abelhas, o El Niño cria um ambiente altamente favorável às doenças. Do ponto de vista fitossanitário, doenças tradicionalmente importantes tornam-se ainda mais agressivas. A combinação entre umidade elevada e longos períodos de molhamento foliar aumenta o risco de infecções por patógenos que causam a sarna da macieira, mancha foliar de Glomerella e outras doenças fúngicas que podem provocar desfolha precoce e perdas de qualidade nos frutos.
Neste manejo, o monitoramento climático torna-se indispensável. Os avisos fitossanitários, por exemplo, também são importantes ferramentas que auxiliam na tomada de decisão do produtor ao estimar o risco de infecção das principais doenças da macieira. Com essas informações, é possível escolher o fungicida mais adequado para cada situação, definir a estratégia de manejo e aproveitar as melhores janelas de aplicação antes e após os períodos chuvosos.
Se a chuva representa um desafio, ela também reforça a importância de uma prática que vem ganhando cada vez mais espaço nos pomares da Serra: a cobertura vegetal permanente nas entrelinhas de plantio.
Muito mais do que uma simples vegetação entre as fileiras, essa cobertura funciona como uma ferramenta de conservação do solo. Ela reduz o impacto direto das gotas de chuva, diminui o escorrimento superficial, evita processos erosivos, reduz a compactação e aumenta a velocidade de infiltração da água no solo. Em pomares implantados em áreas de relevos ondulados a fortemente acidentados, característicos da região serrana, manter a cobertura vegetal significa conservar a fertilidade e a matéria orgânica, melhorar a estrutura e a saúde do solo e aumentar a resiliência do sistema produtivo diante de eventos climáticos extremos.
A expectativa dos meteorologistas é de que o El Niño ganhe força ao longo da primavera, tornando os meses de setembro e outubro mais chuvosos que o normal. Isso coloca a florada de Gala e Fuji em um cenário de alto risco climático, exigindo planejamento, monitoramento e decisões rápidas no campo. Mais do que nunca, a produtividade desta safra dependerá da integração entre clima, polinização, sanidade e boas práticas de manejo conservacionista.






