Faltar água para consumo no meio rural é algo muito sério, mas alguns municípios da Serra Catarinense enfrentam um problema ainda maior. A safra de maçã, principal atividade econômica, pode estar seriamente comprometida. A cultura responde por 60% do movimento econômico de São Joaquim e 75% da economia de Bom Jardim da Serra e Urupema. Ou seja, de cada R$ 10,00 que circulam nesses municípios, R$ 7,50 advém da maçã. É claro que os fruticultores serão reembolsados parcialmente pelo seguro agrícola, mas esses recursos não garantem a movimentação habitual gerada pela cadeia da fruta, que fomenta também o Comércio e o Serviço.
Mariuccia Schlichting De Martin é pesquisadora na área de fisiologia da macieira da Epagri na Estação Experimental de São Joaquim e explica qual é a situação. "Eu tive a informação de que algumas propriedades rurais já estão com falta de água para realização de tratamentos e pulverizações na cultura da macieira, e também de que em alguns locais, onde existe sistema de irrigação para as plantas, está faltando água para irrigar," comenta ela orientando que a Casan acompanha essa situação.
Em relação ao plantio, a pesquisadora aponta que a cultura da macieira está sendo bastante afetada pela deficiência hídrica na Região Serrana. "Os meses de dezembro e janeiro são fundamentais para o crescimento dos frutos. Em grande parte dos pomares, o calibre dos frutos acabará sendo comprometido. Maçãs menores normalmente tem um menor valor comercial agregado, sendo que maçãs muito pequenas são direcionadas para indústria para produção de sucos e outros subprodutos."
Em alguns pomares, onde o solo é mais raso, Mariuccia avalia que o deficit hídrico foi mais severo. Os frutos estão murchos e com sintomas de queimadura de sol, e as plantas já estão com as folhas amarelando e caindo, processo que normalmente ocorreria apenas no final do outono e início do inverno. Essas plantas provavelmente não irão produzir nesta safra e podem ainda ter a próxima safra comprometida.
Economia depende do clima
Não chove regularmente em Santa Catarina desde 2017, mas foi a partir de 2019 que os efeitos da estiagem se agravaram. Desde então, as chuvas são mal distribuídas ou torrenciais, alagam e se esvaem rapidamente não mantendo a umidade do solo por longos períodos. Prejuízo para todas as atividades agrícolas e pecuárias.
Diego Nesi é o presidente da Associação dos Produtores de Maçã e Pera de Santa Catarina (Amap) e explica que a maçã representa em torno de 60% do movimento econômico de São Joaquim e em torno de 75% para os municípios de Bom Jardim da Serra e Urupema. Nos demais municípios da área de abrangência da Amap, a economia é menos dependente da maçã, mas a estiagem também está impactando a atividade.
"Devido ao aumento no custo de produção da maçã, consequência da pandemia que inflacionou o preço dos combustíveis, adubos e defensivos, sobrará menos recursos para o fruticultor. E dessa forma, vai girar menos recursos na economia local destes municípios.
Com isso, os estabelecimentos do comércio também sentirão redução no seu faturamento," lamenta. Ele comenta que tudo funciona como uma engrenagem. Se uma delas não roda direito o impacto é grande.
Vários municípios já decretaram ou preparam a documentação para o decreto de emergência, documento que viabiliza a apuração dos danos e facilita a vinda de recursos estaduais e federais. "De fato existe um impacto negativo considerável que está sendo dimensionado pelos técnicos da iniciativa privada e do governo. Dentro em breve teremos números mais detalhados e estaremos informando a imprensa e os órgãos responsáveis por apoiar nesse momento tão difícil para o homem do campo," diz Diego.
Concluindo, o presidente da Amap explica que depois da decretação de emergência pelos municípios, serão pleiteadas ações de prorrogação de custeios para quem não tiver condições de quitar seus financiamentos e um crédito emergencial para aqueles com dificuldades em preparar a próxima safra. Nas duas situações já existem políticas públicas para ajudar o produtor.
Estado vai liberar R$ 150 milhões em ações de mitigação
Os produtores rurais de Santa Catarina contarão com um novo aporte de recursos do Governo do Estado para investimentos em sistemas de captação, armazenagem e uso de água. Em 2022, o Programa SC Mais Solo e Água terá R$ 100 milhões disponíveis para ampliar a resistência hídrica no meio rural e minimizar os impactos das recorrentes estiagens. Além disso, existe a sinalização da Assembleia Legislativa de mais R$ 50 milhões para reforçar essas ações.
O anúncio foi feito pelo secretário de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural, Altair Silva, durante reuniões com 58 prefeitos das regiões Oeste e Extremo Oeste: "O SC Mais Solo e Água foi um investimento certeiro no meio rural catarinense e está diminuindo a fila de espera para o recebimento de água. Nós queremos que cada vez mais produtores acessem os recursos para investir em captação e armazenagem de água, além da recuperação de fontes e nascentes, só assim estaremos mais preparados para enfrentar as estiagens - que já se tornaram recorrentes em Santa Catarina", destaca.
Este será o segundo ano consecutivo que o Governo destina recursos para o combate à estiagem. Em 2021, foram R$ 100 milhões em investimentos, que beneficiaram mais de 2,4 mil agricultores e 100 prefeituras. O Programa SC Mais Solo e Água possui linhas de apoio especiais com descontos que podem chegar a 75% do valor contratado no financiamento para construção de sistemas de armazenagem e distribuição de água.
Segundo o prefeito de Flor do Sertão, Sidnei José Willinghofer, as ações do Governo do Estado já apresentam resultados no município e diminuíram a demanda por água no meio rural. "O caminho, de fato, é guardar água. Nós fizemos um trabalho em parceria com a Epagri de conscientização de produtores para construção de cisternas e hoje podemos ver os resultados".
As informações sobre os Programas para aumentar a resiliência hídrica foram esclarecidas pelo secretário Altair Silva e por representantes da Defesa Civil aos prefeitos em uma série de reuniões com membros das Associações de Municípios do Entre Rios (Amerios); do Alto Irani (Amai); do Extremo Oeste de Santa Catarina (Ameosc) e do Noroeste de Santa Catarina (Amnoroeste). As regiões mais afetadas pela falta de chuvas.
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