Depois de um mês com chuvas frequentes, os rios da Serra Catarinense estão cheios, condição que esconde um problema sério. Assim que as chuvas cessam, as águas baixam rapidamente, o que não ocorria no passado. Essa é a situação do Rio Caveiras, única fonte de água potável para a cidade de Lages. A redução da vazão prejudica a geração de energia elétrica na Usina do Salto Caveiras e motivou estudo técnico realizado pela Udesc, a pedido da Semasa, entidade responsável pelo abastecimento da cidade.
Realizado em 2020, o estudo analisou 40 pontos do Rio Caveiras, que nasce na Localidade de Caveirinha, entre Urupema e Painel, passa por Lages, Capão Alto, São José do Cerrito, Campo Belo do Sul e Vargem. Na época, a quantidade de água era tão pequena que não passava por cima da barragem de captação da Semasa. Ou seja, tudo o que chegava naquele ponto era destinado para abastecer a cidade e também à produção da Ambev. Nos últimos anos, essa foi a condição mais crítica do rio, famoso por não perder volume de água mesmo em longos períodos de estiagem.
"Atualmente, em função das chuvas frequentes, o nível do rio está 100% normal, mas fazemos o monitoramento constante," explica o engenheiro da Semasa, Ricardo Fontana Sirtoli. Ele comenta que em função dessa situação, o estudo da Udesc deve, também, apontar uma alternativa para a captação de água, caso a situação do Caveiras se agrave no futuro. É que a cidade está longe de outros rios de médio e grande porte.
O professor Sílvio Luís Rafaeli Neto, da Udesc participou dos estudos que originaram um relatório técnico. "A área abrangeu a região hidrográfica 4 de Santa Catarina, na qual se insere a bacia do Rio Caveiras. O objetivo foi medir a vazão em 40 pontos distribuídos nesta região, uma vez que as vazões observadas a olho nu indicavam situação crítica."
O relatório final consolidou a análise sobre os 40 pontos, o que inclui um conjunto de pontos no raio de 30km ao redor de Lages. Na época, a água ficou abaixo do nível da barragem que capta água para a cidade de Lages. A vazão era tão baixa que não era suficiente para transpor a barragem. Colocaram um sifão para coletar água para a Ambev. "Depois da barragem, o rio praticamente não tinha vazão. O que mantinha a água correndo eram seus afluentes," conclui o professor.
Captação melhorada - No final do mês de agosto do ano passado, a Semasa anunciou que estava investindo R$ 1,5 milhão na substituição das três motobombas utilizadas na estação de recalque (captação de água).
O secretário da Semasa, Jurandi Agustini, explicou, na época, que com este novo conjunto de motobombas haverá melhoria substancial tanto na capacidade de captação de água do Rio Caveiras (mil litros por segundo) como no bombeamento desta água para as estações de tratamento e de distribuição para a população de Lages. É que em agosto de 2020 Lages, bem como o estado, passava por um período longo de estiagem.

Semasa monitora a vazão do rio na captação de água e investiu em novas bombas
Foto: Toninho Vieira / PML
Estiagem piorou desde 2018
A falta de chuvas regulares já prejudica a geração de energia na Usina Hidrelétrica do Salto Caveiras, que funciona abaixo de sua capacidade instalada, que é de 3,83 megawatts.
Entre abril e agosto deste ano, a usina tem trabalhado, na maior parte do tempo, com potência inferior à sua capacidade. É o que explica o engenheiro Caio Cesar Borges Belico, do Departamento de Operação e Manutenção da Celesc Geração. "Não é a primeira vez que esse problema ocorre, inclusive, desde 2018, o Rio Caveiras tem apresentado com frequência períodos de baixa afluência."
Questionado sobre o que pode ser feito para mitigar o problema, o engenheiro alerta que não existe apenas um motivo para a situação atual. As mudanças no clima são o principal, mas o desmatamento em todos os biomas do Brasil provoca a diminuição de chuvas. Sendo assim, o incentivo em políticas de gestão ambiental torna-se cada vez mais importante para reverter esse quadro.
A escassez hídrica é comum em grande parte do Estado e, nos últimos meses, a maioria das usinas catarinenses têm produzido energia abaixo da sua média de geração. Até o momento, a Celesc Geração está 16,48% abaixo de energia do que deveria produzir e o maior motivo para esta queda é a restrição hídrica. Ela possui 12 usinas classificadas como CGHs - Centrais Geradoras, com potência de até 5 MW, ou PCHs - Pequenas Centrais Geradoras, com potência entre 5 MW e 30 MW, no estado de Santa Catarina.

Em períodos de estiagem, água não passa sobre a barragem do Salto Caveiras
e prejudica a geração de energia
Mauro Maciel
Rio Pelotas está na mesma situação
Instalada em 2005 sobre o Rio Pelotas, a Usina Hidrelétrica Barra Grande está na divisa entre os municípios de Anita Garibaldi (SC) e Pinhal da Serra (RS). O problema de estiagem é sazonal, ou seja, ocorre de tempos em tempos. Mas os últimos três anos são considerados os piores desde o início da operação, situação que tem impactado na geração de energia e, por consequência, no repasse da compensação por uso de recursos hídricos aos municípios atingidos pelo lago.
"A atual crise hídrica que estamos atravessando é bastante severa e pode ser considerada a mais forte desde que iniciou a operação da Usina Hidrelétrica Barra Grande, em novembro de 2005," avalia o gerente de Operação e Manutenção da usina, Marco Aurélio Villar Cesar.
Ele observa que embora os regimes de hidrologia tenham sazonalidade conhecida, quando olhamos os históricos é possível haver variações relevantes ano a ano, principalmente na região Sul. Particularmente esta crise hídrica está mais persistente, pois nos últimos três anos estão ocorrendo precipitações abaixo do esperado.
Quanto a redução na geração de energia e seus impactos, Marco Aurélio comenta que A Usina Hidrelétrica Barra Grande está integrada ao Sistema Interligado Nacional, que confere estabilidade e confiabilidade ao fornecimento de energia elétrica, pois permite levar a energia a grandes distâncias, do Norte ao Sul do pais. Portanto, eventual desabastecimento não seria consequência da redução de geração da Usina Barra Grande, mas sim de um problema generalizado que ocorre em todo o Brasil.
Para ele, o uso consciente de água e energia é um fator que pode colaborar muito para evitar situações de racionamento. Há também medidas que vêm sendo adotadas pelos órgãos reguladores, como descontos para quem economizar energia e a operação diferenciada dos sistemas de geração de energia, privilegiando o uso de combustíveis fósseis.

Com a quantidade reduzida de água, o vertedouro, que é feito para escoar o
excedente, permanece seco
Foto:Divulgação Baesa
Bacias do Pelotas e Canoas não têm plano de gerenciamento
O plano é fundamental para analisar a situação dos rios que compõem as bacias, dentre eles o Caveiras. O estudo permite ainda fazer correções e promover ações que contribuam para preservar esses rios e seus afluentes. Brenda Ferreira Alves é a presidente dos comitês e explica a situação.
Folha da Serra - As Bacias Hidrográficas dos Rios Pelotas e Canoas são as únicas que não possuem Plano de Gerenciamento?
Brenda Ferreira Alves - Falando do cenário estadual, além da Bacia Hidrográfica do Rio Canoas e Afluentes Catarinenses do Rio Pelotas a Bacia do Rio do Peixe também não possui o Plano de Bacias Hidrográficas.
Quanto custa desenvolver o plano e em quanto tempo?
O desenvolvimento e o preço de um plano de bacia hidrográfica varia conforme a magnitude dessa bacia, por exemplo, bacias maiores demandam mais tempo, o que acarreta no período do desenvolvimento e mais estudos, o que influencia no valor. Esse processo passa por licitação, para que assim empresas ou instituições concorram ao pleito.
Por exemplo, recentemente (2020) foi concluído o Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Urussanga. Este teve início em 2018 e com um repasse de R$ 360 mil para elaboração. No entanto, não é uma regra, devido às variáveis e particularidades de cada bacia. No caso o CBH Canoas/Pelotas representa a maior região hidrográfica de SC.
Qual é a importância do plano?
O plano é um dos instrumentos de gestão das águas, ou seja, é fundamental para o planejamento, pois influencia na tomada de decisões. Nele estão dispostas as características daquela bacia e estão consolidadas as ações para a gestão dos recursos hídricos daquele local.
Sem ele é possível realizar ações de preservação? Quais?
As ações para o gerenciamento na ausência do plano são feitas se utilizando dos demais instrumentos, porém não podemos nos fixar somente nestes, é preciso todos para cumprirmos o que dispõe a legislação.
Como você analisa a crise hídrica brasileira?
A crise hídrica brasileira é um reflexo das mudanças que o planeta enfrenta a cada dia. Temos diversos desperdícios de água que contribuem para a diminuição dos reservatórios, falta de chuvas, aumento do consumo nas diversas esferas de uso (indústria, população, agricultura, dessedentação). Gerir nossos recursos hídricos nunca foi tão fundamental, pois situações como a que estamos vivendo nos últimos dois anos e que se repetirão poderiam ter sido minimizadas. Nossa região é privilegiada com esse bem natural tão importante, a água, é imprescindível que tenhamos nossas bacias monitoradas.
Aneel aprova leilão para contratação emergencial de energia
A diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, dia 5, a realização de um leilão de contratação emergencial de energia de reserva, a ser realizado em 25 de outubro.
Segundo a agência, o novo leilão foi aprovado "como parte das medidas para otimização do uso dos recursos hidroenergéticos e para o enfrentamento da atual situação de escassez hídrica, a maior em 91 anos".
No certame, será contratada energia de reserva proveniente das fontes eólica, solar fotovoltaica e termelétrica a óleo diesel, a óleo combustível, a biomassa e a gás natural, com conexão nos submercados Sudeste/Centro-Oeste e Sul, que são as regiões mais afetadas pela falta de chuvas que reduziu o nível dos reservatórios de hidrelétricas.
Ainda segundo informou a Aneel, a contratação será feita por edital de procedimento competitivo simplificado. Dessa maneira, os órgãos responsáveis devem "reduzir prazos, simplificar requisitos, quando couber, e editar rotinas operacionais provisórias, regras e procedimentos de comercialização transitórios de modo a viabilizar o suprimento em tempo reduzido", informou a agência.
Fonte: Agência Brasil






