Era próximo da meia-noite, temperatura de menos 2°C e a equipe do Samu de Lages foi acionada para atender a uma ocorrência no Bairro Ipiranga. A informação era de que uma mulher teve aumento do fluxo menstrual, algo simples e corriqueiro, que geralmente não exige a ação dos socorristas. Quando o socorrista Gabriel Menegazzo, e a técnica em enfermagem Viviane de Fátima Pereira chegaram ao local, tudo mudou. "Quando iluminamos, uau!. Percebemos que era um bebê," lembra Viviane.
O atendimento ocorreu no dia 23 de julho. Naquela semana, nevou na Serra Catarinense e as temperaturas se mantiveram muito baixas. O local é utilizado, geralmente, por usuários de drogas e, devido às brigas e desavenças entre eles, já é muito conhecido pelo pessoal do Samu. É uma espécie de churrasqueira e não tem porta. Quando eles chegaram estava tudo muito escuro. "Ouvimos a voz da mulher dizendo que era um bicho que estava ali. Pedi para o Menegazzo iluminar e na hora percebi que era um bebê, ainda envolto na bolsa. Tentei pular para dentro e não consegui, sou muito baixa. Entrei com o auxílio do Menegazzo," relata Viviane.
Eles entraram rapidamente, achavam que devido às condições o bebê já estava morto, mas ainda à distância observaram um movimento dos braços da criança. "O bebê ainda estava encapsulado. Nasceu com bolsa e tudo. A mãe estava visivelmente alucinada. A adrenalina subiu e nossa prioridade foi salvar os dois. Levei a criança para a viatura, que estava mais quente," lembra o rapaz, emocionado ao relatar os fatos. Eles dizem que, felizmente, as novas viaturas têm ar condicionado.
Como havia duas vítimas, uma segunda viatura foi chamada, com médico e enfermeiro. Mas, enquanto isso, Viviane pulou para fora da estrutura e entrou na viatura, onde precisou reanimar o bebê que estava com a frequência cardíaca muito baixa. "Assim que toquei no bebê a bolsa se rompeu e o líquido vazou. Estava morno e manteve o bebê vivo. Acredito que foi uma coisa de Deus, a temperatura era negativa. Nós estávamos extremamente agasalhos e ainda sentíamos frio. Peguei o bebê e enrolei em alguns panos que estavam próximos à mãe e entreguei para o Menegazzo levar até a viatura. Pulei de volta e trabalhamos para aquecer a criança. Graças a Deus aprendi com as meninas do Centro Obstétrico como fazer, manter a calma. Essa experiência facilitou," avalia Viviane, que também trabalha no Centro Obstétrico do Hospital Tereza Ramos. A escuridão foi uma dificuldade à parte.
Na hora, eles perceberam que a criança era muito pequena, do tamanho da mão de Menegazzo. Ele disse que teve até dificuldades em colocar o lençol térmico aluminizado. Depois, no hospital, confirmou-se que a criança tinha apenas 1.290 gramas.
Lembrança para a vida toda
Viviane trabalha no Samu há 11 anos. Menegazzo, há apenas seis meses, mas tem experiência de anos em seu outro emprego, o de socorrista da Autopista Planalto Sul. Já fizeram partos, mas nada igual a este. "Tudo deu muito certo. Foi Deus. Se demorasse um pouco mais, a criança tinha congelado e morrido," diz aliviado o socorrista, que também é pai e, nessas horas, lembra da família.
Viviane comenta que na hora, como tem que fazer muitos procedimentos, ninguém relaciona a situação com a família, mas depois que entrega o paciente, que tudo dá certo, a adrenalina baixa e começa a pensar. "Se a minha filha tem amor, carinho, abrigo e proteção, por que esse bebê também não tem? De forma alguma quero julgar a mãe. É uma situação que nunca mais vou esquecer. Não é para se gabar, mas a gente sabe que fez a diferença para a vida de uma pessoa, fizemos algo muito legal."
Coincidência
Há alguns anos, também pelo Samu, Viviane fez o parto de outro filho da mesma mulher. Mas na época, a situação era tranquila, de dia e sem surpresas. Depois, no hospital, ela comentou com a mãe que também lembrou desse fato.
Aliás, fazer partos faz parte da vida dos socorristas, mas até agora esse atendimento é considerado o mais dramático em função do conjunto de condições. "Já fizemos partos dentro da viatura, o que não é o ideal. O local ideal para partos é o Centro Obstétrico do hospital, que é um ambiente controlado, com equipamentos e profissionais especializados," esclarece Viviane.






